Experiência de treino é importante, mas será suficiente?

Muitas pessoas acreditam que alguns meses, ou até alguns anos, de treino são suficientes para perceber tudo sobre o treino de força. Afinal, “se resulta comigo, também resulta com os outros”, certo?
Na realidade, esta é uma das ideias mais comuns e, ao mesmo tempo, mais enganadoras no mundo do exercício físico.
Embora a experiência pessoal tenha valor, ela nunca substitui os princípios científicos que regem a adaptação do corpo humano ao treino. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra quando fatores como genética, idade, historial de treino, estado de saúde ou objetivos são diferentes.
A experiência ensina, mas também pode enganar
Todos conhecemos alguém que começou a treinar há relativamente pouco tempo e rapidamente passou a dar conselhos sobre o “melhor” exercício, o “único” método eficaz ou a forma “correta” de treinar.
Este fenómeno tem até explicação na psicologia: chama-se efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo em que pessoas com pouca experiência tendem a sobrestimar os seus conhecimentos.
Treinar durante algum tempo permite adquirir sensibilidade corporal e perceber melhor determinados movimentos. No entanto, isso não significa compreender verdadeiramente como o organismo responde ao treino.
Seria semelhante a alguém afirmar que domina a mecânica automóvel apenas porque conduz todos os dias.
A experiência é importante, mas não substitui o conhecimento.
O corpo adapta-se segundo princípios biológicos, não opiniões
Independentemente da idade, do sexo ou do nível de experiência, todos os seres humanos respondem ao treino através dos mesmos mecanismos fisiológicos.
É precisamente por isso que existem princípios universais do treino que continuam válidos após décadas de investigação científica.
PODE TER INTERESSE EM LER: 7 princípios básicos de treino – o segredo para atingir resultados!
1. Técnica: qualidade antes da quantidade
Um movimento bem executado aumenta a eficácia do exercício e reduz significativamente o risco de lesão.
Uma técnica adequada permite:
- recrutar corretamente os músculos pretendidos;
- melhorar a eficiência do movimento;
- desenvolver força de forma mais consistente;
- reduzir compensações articulares.
Levantar mais peso à custa de uma execução deficiente raramente produz melhores resultados.
Como costuma dizer-se no treino:
“Não é o exercício que produz resultados; é a forma como o executamos.”
2. O ritmo do movimento influencia os resultados
Muitas pessoas realizam as repetições demasiado depressa. Contudo, controlar a velocidade do movimento aumenta o chamado tempo sob tensão (Time Under Tension), fator associado ao desenvolvimento muscular.
Movimentos controlados permitem:
- maior ativação muscular;
- melhor aprendizagem motora;
- maior controlo articular;
- menor utilização da inércia.
Treinar mais depressa nem sempre significa treinar melhor.
3. A carga deve ser adequada ao objetivo
Mais peso não significa automaticamente melhores resultados.
A ciência demonstra que tanto cargas elevadas como moderadas podem produzir ganhos de força e hipertrofia, desde que a intensidade seja suficiente e o exercício seja realizado próximo da fadiga muscular.
O mais importante é que exista um estímulo suficientemente desafiante.
4. Aprender o que significa realmente chegar perto da fadiga
Quando alguém inicia o treino, normalmente termina uma série muito antes de atingir o seu verdadeiro limite.
Na maioria dos casos, ainda conseguiria realizar várias repetições adicionais.
Com a experiência, aprende-se a reconhecer a diferença entre:
- desconforto muscular;
- esforço intenso;
- fadiga verdadeira.
Esta capacidade melhora significativamente a qualidade do treino. No entanto, importa distinguir fadiga de exaustão extrema.
Treinar sempre até à falha muscular não é obrigatório nem recomendado em todos os exercícios ou para todas as pessoas.
5. A sobrecarga progressiva continua a ser indispensável
O corpo adapta-se apenas quando é exposto a desafios progressivamente maiores.
Este princípio, conhecido como sobrecarga progressiva, consiste em aumentar gradualmente um ou mais fatores do treino, como:
- carga utilizada;
- número de repetições;
- volume total;
- frequência semanal;
- dificuldade técnica;
- amplitude de movimento.
Sem progressão, o organismo deixa de receber estímulos suficientes para continuar a evoluir.
É precisamente por isso que tantas pessoas ficam meses ou anos sem notar diferenças.
PODE TER INTERESSE EM LER: Com dificuldade em atingir os seus objetivos de treino? Estas podem ser as razões!
Algumas aprendizagens só podem ser vividas
Existem aspetos do treino impossíveis de compreender apenas lendo artigos ou vendo vídeos. É necessário senti-los.
Por exemplo:
- perceber como é realmente uma série realizada próximo da fadiga;
- compreender a diferença entre um movimento acelerado e outro controlado;
- experimentar os efeitos acumulados de vários meses de treino consistente;
- aprender a distinguir esforço de dor.
Estas experiências desenvolvem aquilo que muitos treinadores designam por consciência corporal, uma competência que melhora significativamente a qualidade do treino.
PODE TER INTERESSE EM LER: 7 perguntas para saber se está a treinar bem
A experiência é valiosa, quando é acompanhada por pensamento crítico
A experiência prática permite desenvolver preferências pessoais.
Algumas pessoas sentem-se melhor com uma postura mais aberta no agachamento. Outras preferem uma pega mais fechada no supino.
Estas diferenças são naturais e fazem parte da individualidade biomecânica.
O problema surge quando preferências individuais são apresentadas como verdades universais. Nem tudo o que resulta para uma pessoa será automaticamente a melhor solução para outra.
O papel de um profissional faz toda a diferença
Uma das maiores vantagens de treinar acompanhado por profissionais qualificados é evitar anos de tentativa e erro.
Um treinador consegue identificar:
- erros técnicos;
- cargas inadequadas;
- falta de progressão;
- desequilíbrios musculares;
- estratégias mais eficazes para cada objetivo.
Este acompanhamento permite evoluir de forma mais rápida, segura e consistente.
PODE TER INTERESSE EM LER: SERÁ QUE EU PRECISO, REALMENTE, DE UM PERSONAL TRAINER?
O treino inteligente vence sempre o treino baseado em opiniões
No mundo do fitness existem inúmeras opiniões, mas o corpo humano continua a obedecer às mesmas leis da fisiologia.
A técnica continua a importar. A progressão continua a ser necessária. A intensidade continua a fazer diferença. A recuperação continua a ser indispensável.
E a consistência continua a ser o fator que mais distingue quem alcança resultados duradouros.
Na próxima vez que ouvir alguém afirmar:
“Faço assim porque funciona melhor para mim.”
Vale a pena perguntar:
Será uma preferência pessoal, ou estará a contrariar princípios científicos que se aplicam praticamente a todos?
Na maioria das situações, o sucesso não depende de encontrar um método secreto.
Depende de aplicar corretamente, semana após semana, os princípios fundamentais do treino de força.
PODE TER INTERESSE EM LER: Quando a motivação falha, a consistência vence!
Porque, no fim de contas, a experiência é importante, mas quando é apoiada pela ciência, torna-se muito mais poderosa.
No AXIS WELLNESS, acreditamos que os melhores resultados não surgem por acaso. Resultam da combinação entre formação técnica contínua, experiência prática e uma prescrição de exercício baseada na evidência científica. É esse compromisso que orienta diariamente o trabalho da nossa equipa técnica.
Para mais informações sobre o nosso serviço de treino personalizado, assim como para saber as nossas diversas modalidades de adesão, clique aqui ou contacte-nos através do nº 258 847 555 (Viana do Castelo)
Imagem gerada por IA
Referências bibliográficas
- Brad J. Schoenfeld (2021). The Mechanisms of Muscle Hypertrophy and Their Application to Resistance Training. Journal of Strength and Conditioning Research.
- Brad J. Schoenfeld, James W. Grgic & colaboradores (2021). Resistance Training Recommendations to Maximize Muscle Hypertrophy in an Athletic Population. Strength and Conditioning Journal.
- American College of Sports Medicine (2022). ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription (11th Edition).
- David Dunning & Justin Kruger (1999). Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology.
- William J. Kraemer & Nicholas A. Ratamess (2004). Fundamentals of Resistance Training: Progression and Exercise Prescription. Medicine & Science in Sports & Exercise, 36(4), 674–688.