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Treino e ciclo menstrual: ciência ou tendência?

O que a ciência diz sobre a “sincronização do ciclo” e como usar o conhecimento do ciclo menstrual para melhorar o treino sem cair em mitos.

Nos últimos anos, o conceito de sincronicação do ciclo ganhou enorme popularidade nas redes sociais e no mundo do fitness. A ideia é simples: ajustar o treino, a alimentação, o descanso e até a produtividade às diferentes fases do ciclo menstrual, aproveitando as variações hormonais para otimizar o desempenho e o bem-estar.

Mas será que a evidência científica confirma estas recomendações? A  resposta é mais equilibrada do que muitos conteúdos online fazem parecer.

A investigação demonstra que as alterações hormonais ao longo do ciclo menstrual podem influenciar o desempenho físico, mas também mostra que essas diferenças são, na maioria das mulheres, relativamente pequenas, altamente individuais e difíceis de prever com precisão.

A principal conclusão da literatura científica é clara: o melhor plano de treino continua a ser aquele que respeita a resposta individual do corpo, e não um calendário rígido baseado no ciclo menstrual.

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O ciclo menstrual: muito mais do que a menstruação

O ciclo menstrual é frequentemente considerado um verdadeiro indicador do estado geral de saúde feminina. Alguns especialistas chegam mesmo a descrevê-lo como o “quinto sinal vital”, devido à quantidade de informação que fornece sobre o funcionamento do organismo.

Ao longo do ciclo, ocorrem alterações hormonais que podem influenciar:

  • níveis de energia;
  • qualidade do sono;
  • humor;
  • metabolismo;
  • saúde óssea;
  • saúde cardiovascular;
  • capacidade de recuperação.

 

Por outro lado, fatores externos como:

  • stress;
  • alimentação;
  • qualidade do sono;
  • doenças;
  • volume de treino;

 

também influenciam o próprio ciclo menstrual.

Ou seja, trata-se de uma relação bidirecional: o ciclo influencia o organismo, mas o organismo também influencia o ciclo.


As duas grandes fases do ciclo menstrual

Embora cada mulher tenha um padrão próprio, um ciclo considerado típico divide-se em duas fases principais.

Fase folicular

Começa no primeiro dia da menstruação e termina com a ovulação.

Durante esta fase, os níveis de estrogénio aumentam progressivamente até atingirem um pico imediatamente antes da ovulação.

Fase lútea

Inicia-se após a ovulação e prolonga-se até ao início da próxima menstruação.

Nesta fase verifica-se uma subida significativa da progesterona, mantendo-se também níveis moderadamente elevados de estrogénio durante parte deste período.

São precisamente estas oscilações hormonais que podem provocar pequenas alterações na forma como algumas mulheres se sentem durante o treino.


O ciclo menstrual influencia realmente o desempenho?

A resposta é sim, mas provavelmente menos do que se pensa.

Diversas revisões sistemáticas mostram que existem alterações fisiológicas relacionadas com as flutuações hormonais. No entanto, quando se avalia o desempenho desportivo de centenas de mulheres, verifica-se que as diferenças médias são pequenas e bastante variáveis entre indivíduos.

Algumas mulheres sentem claras alterações de energia ao longo do mês. Outras praticamente não identificam qualquer diferença.

Além disso, um mesmo ciclo pode ser diferente do anterior devido a fatores como:

  • noites mal dormidas;
  • maior carga de trabalho;
  • viagens;
  • stress psicológico;
  • alimentação;
  • doenças.

 

Por isso, tentar planear todo o treino assumindo que “ao 14.º dia terá obrigatoriamente mais força” é uma simplificação excessiva da fisiologia humana.


Existe uma melhor altura para treinos intensos?

Possivelmente. Os níveis mais elevados de estrogénio parecem favorecer alguns mecanismos relacionados com o desempenho físico.

A investigação sugere que o estrogénio poderá:

  • melhorar a utilização das reservas energéticas;
  • favorecer a síntese muscular;
  • reduzir algum dano muscular induzido pelo exercício;
  • aumentar ligeiramente a tolerância à dor;
  • diminuir o risco de algumas lesões.

 

Por essa razão, algumas mulheres referem sentir maior facilidade para realizar:

 

Contudo, existe uma limitação importante.

Sem medições hormonais frequentes, é praticamente impossível saber exatamente quando ocorrem estes picos hormonais em cada ciclo.

Além disso, os dias de ovulação variam significativamente entre mulheres e até entre ciclos da mesma mulher.


Deve reduzir o treino durante a menstruação?

Não necessariamente.

Nos dias que antecedem a menstruação e durante os primeiros dias do período, a queda do estrogénio e da progesterona pode estar associada a sintomas como:

  • fadiga;
  • retenção de líquidos;
  • maior sensibilidade mamária;
  • alterações do humor;
  • cólicas menstruais;
  • sensação de menor energia.

 

Para algumas mulheres, estes sintomas tornam o treino mais difícil. Para outras, acontece precisamente o contrário: o exercício ajuda a reduzir a dor, melhora o humor e aumenta a sensação de bem-estar.

A evidência científica demonstra que o exercício físico regular pode reduzir vários sintomas da síndrome pré-menstrual, incluindo ansiedade, dor e desconforto.

Assim, não existe qualquer recomendação científica para interromper automaticamente o treino durante a menstruação.

A decisão deve depender sobretudo de como cada mulher se sente naquele momento.


E quanto ao treino de força?

Esta é uma das áreas mais estudadas atualmente.

Alguns trabalhos sugerem que realizar maior volume de treino de força durante a fase folicular poderá proporcionar ganhos ligeiramente superiores de massa muscular e força.

Outros estudos indicam que, durante períodos com níveis mais elevados de estrogénio, poderá existir:

  • menor inflamação muscular;
  • recuperação mais rápida;
  • menor dor muscular tardia (DOMS);
  • maior facilidade para utilizar cargas elevadas.

 

No entanto, os próprios investigadores reconhecem que os estudos ainda apresentam limitações importantes:

  • amostras pequenas;
  • metodologias diferentes;
  • resultados nem sempre consistentes.

 

Por isso, ainda não existem recomendações oficiais para alterar programas de musculação exclusivamente com base no ciclo menstrual.


Porque é tão difícil obter respostas definitivas?

Existe uma razão simples. Durante décadas, a maioria dos estudos em fisiologia do exercício foi realizada quase exclusivamente em homens. Quando eram incluídas mulheres, muitas investigações nem sequer controlavam a fase do ciclo menstrual.

Consequentemente, ainda existe uma enorme necessidade de investigação de elevada qualidade nesta área.

À medida que surgem novos estudos, será possível compreender melhor como adaptar o treino feminino de forma verdadeiramente personalizada.


O que dizem atualmente os especialistas?

A posição mais consensual entre médicos, investigadores e profissionais do exercício é que a individualização continua a ser a estratégia mais eficaz.

Em vez de seguir regras fixas, recomenda-se observar padrões pessoais.

Pode ser útil registar durante alguns meses:

  • energia;
  • qualidade do treino;
  • recuperação;
  • sono;
  • sintomas menstruais;
  • desempenho.

 

Ao longo do tempo, muitas mulheres identificam tendências próprias que permitem ajustar o treino de forma mais inteligente do que qualquer calendário genérico.


O mais importante continua a ser treinar regularmente

Independentemente da fase do ciclo, aquilo que produz maiores benefícios para a saúde continua a ser a consistência.

A prática regular de exercício físico está associada a:

  • menor risco de doença cardiovascular;
  • melhor controlo metabólico;
  • maior densidade óssea;
  • melhoria da saúde mental;
  • melhor qualidade do sono;
  • redução dos sintomas pré-menstruais;
  • maior qualidade de vida.

 

Segundo as recomendações internacionais, o objetivo passa por acumular, pelo menos:

  • 150 minutos semanais de atividade física moderada, ou
  • 75 minutos de atividade vigorosa, associados a duas ou mais sessões semanais de treino de força.

Conclusão

O ciclo menstrual influencia o organismo, mas não determina por si só o desempenho físico.

Embora existam indícios científicos de que determinadas fases possam favorecer ligeiramente a força, a recuperação ou a energia, essas diferenças variam bastante entre mulheres e entre ciclos.

Mais do que seguir calendários rígidos de sincronização do ciclo, a evidência atual apoia uma abordagem personalizada: ouvir o corpo, monitorizar os sintomas e adaptar o treino às necessidades reais de cada momento.

No AXIS WELLNESS acreditamos que o exercício deve respeitar a individualidade de cada pessoa. O conhecimento científico é uma ferramenta poderosa, mas nunca substitui a experiência do próprio corpo. O melhor plano de treino é aquele que alia evidência, consistência e flexibilidade, promovendo saúde, desempenho e bem-estar ao longo de todas as fases do ciclo menstrual.

Saiba como pode também aceder a todos os benefícios do exercício físico, clicando aqui, ou contactando-nos diretamente através do nº 258 847 555 (Viana do Castelo). 


Referências científicas

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Créditos da imagem: Magnific