Wegovy, Ozempic e Mounjaro: emagrecer sem perder músculo

Perder peso é sempre sinónimo de perder gordura? E o que acontece à massa muscular quando se utilizam medicamentos como Wegovy, Ozempic ou Mounjaro?
Nos últimos anos, medicamentos destinados ao tratamento da obesidade e de doenças metabólicas passaram a fazer parte da realidade de muitas pessoas. Wegovy, Ozempic e Mounjaro são hoje nomes conhecidos, mas a sua utilização levanta uma questão que merece cada vez mais atenção:
Quando o peso diminui, o que está realmente a desaparecer?
A resposta é importante porque o objetivo de um processo de perda de peso não deveria ser simplesmente pesar menos. Deve ser, sempre que possível, reduzir a gordura corporal, preservar a massa muscular, manter a força e melhorar a saúde e a qualidade de vida.
E é aqui que o exercício, particularmente o treino de força, assume um papel fundamental.
Wegovy, Ozempic e Mounjaro: estamos a falar da mesma coisa?
Não exatamente.
Wegovy contém semaglutido, um medicamento que atua sobre os recetores do GLP-1. Na União Europeia, está autorizado para o controlo do peso, em conjunto com uma alimentação com restrição calórica e aumento da atividade física, em pessoas que cumprem determinados critérios clínicos.
Ozempic também contém semaglutido, mas a sua indicação principal na União Europeia é o tratamento da diabetes tipo 2. Embora possa provocar perda de peso, não é, do ponto de vista regulamentar, equivalente ao Wegovy para o tratamento da obesidade.
Mounjaro contém tirzepatido, uma molécula que atua sobre dois sistemas hormonais, GIP e GLP-1. Na União Europeia, está autorizado tanto para determinadas situações de diabetes tipo 2 como para controlo do peso em adultos com obesidade ou excesso de peso associado a problemas de saúde relacionados com o peso.
Apesar das diferenças, estes medicamentos têm algo importante em comum: podem reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, facilitando uma redução da ingestão alimentar e, consequentemente, do peso corporal.
Mas há um ponto essencial:
Estes medicamentos não fazem simplesmente desaparecer gordura.
A redução do peso envolve alterações na quantidade de energia ingerida e utilizada pelo organismo e pode incluir diferentes componentes corporais.
A balança não conta toda a história
Quando uma pessoa perde peso, não perde exclusivamente gordura.
Dependendo da velocidade e dimensão da perda de peso, da alimentação, da atividade física e de outros fatores individuais, pode existir também redução de massa magra, que inclui músculo, água e outros tecidos não adiposos.
É importante fazer esta distinção porque massa magra não é sinónimo de massa muscular.
Uma meta-análise publicada em 2026, que reuniu 20 ensaios clínicos randomizados e mais de 15.000 participantes, concluiu que entre cerca de 25% e 39% da perda de peso observada com terapêuticas incretínicas correspondeu a massa magra. Para o semaglutido, a estimativa foi de 35,2% e, para a tirzepatida, de 25,4%.
Mas o mesmo estudo encontrou uma informação particularmente relevante: quando a perda de peso foi acompanhada por treino de resistência, a proporção de peso perdido sob a forma de massa magra foi consideravelmente mais favorável, cerca de 17,5%.
Isto ajuda a colocar a discussão no lugar certo, ou seja, não é correto dizer que Wegovy ou Mounjaro “destroem músculo”.
Existe perda de massa magra durante processos significativos de perda de peso, independentemente de a estratégia utilizada ser farmacológica ou baseada exclusivamente em alterações do estilo de vida. A questão é perceber como minimizar essa perda e preservar a função muscular.
Porque é que o treino de força é tão importante?
Durante uma fase de perda de peso, o organismo está sujeito a um défice energético.
Sem um estímulo adequado, parte do tecido muscular pode ser perdido juntamente com a gordura. O treino de força fornece precisamente esse estímulo.
Quando os músculos são regularmente solicitados através de exercícios de resistência, existe uma razão fisiológica para o organismo preservar a sua capacidade muscular.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, envolvendo 25 estudos, concluiu que acrescentar treino de resistência a uma intervenção de perda de peso protegeu contra a perda de massa livre de gordura, aumentou a perda de massa gorda e melhorou a força muscular.
Por isso, para quem está a perder peso, o treino de força não deve ser encarado apenas como uma ferramenta para “ganhar músculo”. É também uma ferramenta para preservar o músculo que já existe.
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E isso torna-se particularmente importante quando a ingestão alimentar diminui significativamente.
E a proteína?
A alimentação tem igualmente um papel importante.
Quando existe uma redução da ingestão calórica, é necessário garantir que a alimentação continua a fornecer proteína e outros nutrientes em quantidade adequada.
A proteína fornece aminoácidos necessários para a manutenção e recuperação dos tecidos, incluindo o músculo.
Algumas propostas recentes para pessoas submetidas a terapêuticas com medicamentos incretínicos apontam para ingestões de proteína superiores às necessidades mínimas habituais, podendo chegar a cerca de 1,2 g/kg de peso corporal por dia ou mais em determinados adultos, dependendo do contexto individual. No entanto, não existe uma quantidade universal adequada para todas as pessoas. Idade, composição corporal, atividade física, ingestão energética, função renal e outras condições de saúde devem ser considerados. Por isso, mais proteína não significa automaticamente melhor.
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A estratégia deve ser individualizada e, quando necessário, acompanhada por um nutricionista ou outro profissional de saúde habilitado.
Existe ainda outro desafio: medicamentos que reduzem significativamente o apetite podem fazer com que algumas pessoas passem simplesmente a comer muito menos.
E comer menos pode significar não apenas ingerir menos calorias, mas também ingerir menos proteína, vitaminas e minerais.
É uma das razões pelas quais a qualidade da alimentação continua a ser importante mesmo quando a medicação está a produzir bons resultados na balança.
O exercício deve começar depois da medicação?
Não. Esta é provavelmente uma das ideias mais importantes deste artigo.
O exercício não deve ser guardado para o momento em que a pessoa deixa de tomar o medicamento.
Se o objetivo é preservar músculo durante a perda de peso, faz muito mais sentido integrar o exercício durante todo o processo.
A Organização Mundial da Saúde recomenda, para adultos, pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbia de intensidade moderada (ou o equivalente em atividade vigorosa) e atividades de fortalecimento muscular envolvendo os principais grupos musculares em pelo menos dois dias por semana.
Estas recomendações não são específicas para pessoas que utilizam medicamentos para controlo do peso. Constituem, contudo, uma referência importante para a promoção global da saúde.
Na prática, um programa individualizado poderá combinar:
- Treino de força, para estimular e preservar a massa muscular;
- Exercício cardiovascular, para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e aumentar o gasto energético;
- Atividade física diária, reduzindo o tempo sedentário;
- Alimentação equilibrada, com atenção à ingestão de proteína e micronutrientes;
- Acompanhamento regular, adaptando o exercício e a alimentação à evolução da pessoa.
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E quando se interrompe a medicação?
Esta é uma das questões mais importantes.
Os medicamentos podem ajudar a controlar o apetite e a ingestão alimentar enquanto estão a ser utilizados. Mas a interrupção do tratamento não significa que os mecanismos biológicos associados à obesidade tenham desaparecido.
Os estudos realizados até agora mostram que a recuperação de peso após a interrupção pode ser significativa.
No estudo de extensão do STEP 1, pessoas que tinham sido tratadas com semaglutido durante 68 semanas recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso anteriormente perdido durante o ano seguinte à interrupção do tratamento. Algumas das melhorias metabólicas observadas durante o tratamento também se aproximaram dos valores iniciais.
Os dados com tirzepatida apontam na mesma direção.
No estudo SURMOUNT-4, a maioria dos participantes que passou da tirzepatida para placebo recuperou pelo menos 25% do peso que tinha perdido durante o tratamento ao longo do ano seguinte. Quanto maior foi a recuperação do peso, maior foi também a reversão de algumas melhorias cardiometabólicas.
Isto não significa que todas as pessoas recuperem todo o peso perdido.
Significa que a obesidade é uma doença crónica e que a interrupção da medicação deve ser uma decisão clínica, acompanhada por um profissional de saúde, e não simplesmente uma conclusão automática depois de atingir determinado peso.
É aqui que os hábitos fazem a diferença
Existe uma diferença importante entre perder peso e construir um novo estado de saúde.
Se durante o tratamento uma pessoa apenas observa o número da balança a diminuir, o processo pode ficar demasiado dependente do efeito farmacológico.
Se, simultaneamente, desenvolve hábitos sustentáveis (pratica exercício, aumenta a força, melhora a alimentação, preserva massa muscular e reduz o comportamento sedentário) está a construir uma base que pode continuar a existir mesmo quando o tratamento é alterado.
É por isso que a intervenção deve ser pensada como um todo. A medicação pode ser uma ferramenta, mas não deve ser confundida com todo o tratamento.
O verdadeiro objetivo não é simplesmente perder peso
Imagine duas pessoas que perdem exatamente 15 kg. Na balança, o resultado é igual. Mas uma pode ter perdido sobretudo gordura, preservando a massa muscular e melhorando a força. A outra pode ter perdido uma quantidade maior de massa magra e apresentar uma redução significativa da capacidade muscular.
Os 15 kg dizem muito pouco sobre esta diferença.
Por isso, durante um processo de perda de peso, pode ser relevante acompanhar outros indicadores:
- evolução da composição corporal;
- massa muscular ou massa livre de gordura;
- força;
- capacidade funcional;
- perímetro da cintura;
- condição cardiovascular;
- níveis de atividade física;
- qualidade da alimentação.
O peso continua a ser um indicador útil, mas não deve ser o único.
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Wegovy, Ozempic ou Mounjaro não substituem o exercício
Os medicamentos mais recentes para o tratamento da obesidade representam uma evolução importante na abordagem desta doença.
Podem ajudar muitas pessoas a conseguir uma perda de peso que anteriormente era difícil de alcançar, mas a ciência aponta para uma conclusão igualmente importante:
quanto melhor for preservada a massa muscular durante a perda de peso, mais interessante tende a ser o resultado em termos de composição corporal e capacidade física.
E para isso, três elementos assumem particular importância:
🥗 Alimentação adequada
Uma alimentação equilibrada, nutricionalmente completa e com proteína suficiente para as necessidades individuais.
🏋️ Treino de força
Um estímulo regular e progressivo dos principais grupos musculares, adaptado à condição física e aos objetivos de cada pessoa.
🚶 Atividade física regular
Movimento diário e exercício cardiovascular para melhorar a saúde metabólica e cardiorrespiratória.
Porque o objetivo não deve ser simplesmente “pesar menos”. Deve ser: ter menos gordura, preservar músculo, manter a força e viver melhor.
E isso é muito mais do que aquilo que a balança consegue mostrar.
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Seja com ou sem recurso a medicação, perder peso deve significar mais do que pesar menos.
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Nota importante:
Wegovy, Ozempic e Mounjaro são medicamentos sujeitos a prescrição e acompanhamento médico. A indicação, dose, duração do tratamento e eventual interrupção devem ser determinadas por um profissional de saúde, tendo em conta a situação clínica individual.
A informação apresentada neste artigo tem caráter exclusivamente educativo e não substitui aconselhamento médico ou nutricional individualizado.
Referências científicas
- Eisa N, Barood O. Lean Mass Changes With Incretin Therapy Versus Lifestyle Intervention: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026.
- Binmahfoz A, et al. Effect of resistance exercise on body composition, muscle strength and cardiometabolic health during dietary weight loss in people living with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open Sport & Exercise Medicine. 2025.
- Wilding JPH, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022.
- Cardiometabolic Parameter Change by Weight Regain on Tirzepatide Withdrawal in Adults With Obesity: A Post Hoc Analysis of the SURMOUNT-4 Trial. 2025.
- European Medicines Agency. Wegovy – European Public Assessment Report. Informação do produto atualizada em setembro de 2026.
- European Medicines Agency. Ozempic – European Public Assessment Report. Informação do produto atualizada em agosto de 2026.
- European Medicines Agency. Mounjaro – European Public Assessment Report. Informação do produto atualizada em setembro de 2026.
- World Health Organization. Physical activity – recommendations for adults.
Créditos da foto: Magnific